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Viver em paz…

Chega mais! Este post contém uma indicação de livro pra você!

Olá! Tudo bem?

Em fevereiro, escolhi um livro leve e fácil de ler para aguentar a paulada que virá em março (preparem-se, rs). Viver em paz para morrer em paz: se você não existisse, que falta faria? (2017), publicado pela Editora Planeta, é de autoria do aclamado filósofo, educador e escritor brasileiro Mario Sergio Cortella (1954-).

O que dizer sobre o Cortella? Se você ainda não o conhece, vale ressaltar que ele é de uma inteligência hipnotizante. Tive o prazer de assisti-lo presencialmente em uma conferência de encerramento de um grande evento da área de gestão do conhecimento em 2013 e é tanta bagagem intelectual e expertise em persuasão que, mesmo que ele estivesse falando qualquer bobagem (e não estava!), todos teriam acreditado.

Bem, eu já havia visto diversos vídeos de palestras suas, mas nunca lido um livro mesmo ele já tendo publicado tantos títulos que nem encontrei na internet uma informação concisa sobre a quantidade de sua produção bibliográfica. De qualquer forma, fui escolhida por esse título em uma livraria e acabei levando-o para casa sem um motivo mais específico em mente… Sabe quando você vai à padaria comprar pão e na volta um gato te segue, entra com você e deita no seu sofá como se fosse dele desde sempre? Penso que somos adotados por livros assim como pelos gatos.

Fui adotada. Foi uma leitura rápida e agradável que me trouxe reflexões sobre coisas que acabamos por vivenciar de forma automática em nossas vidas, como o que é a saudade ou o conceito de exposição. Não darei spoiler aqui se são coisas boas segundo o Cortella. Confere lá e depois comenta aqui no MetodoBlog o que achou! 😉

Os capítulos são como minicontos, cada um com um tema, sem a continuação de seu conteúdo. Eu, particularmente, gosto bastante deste formato de escrita, pois me possibilita ler em doses homeopáticas sem perder o fio da meada mesmo quando não tenho tempo disponível e aproveitar melhor uma fila, um download, o entregar da comida chegar, enfim.

Em cada tema, ele fala sobre aspectos da vida que nos rodeiam (confira o sumário e uma seleção de citações a seguir) de uma maneira leve e assertiva, apresentando a morfologia das palavras e a história de alguns conceitos, nos fazendo entender os porquês de as coisas serem como são. Mas todas essas reflexões nos levam a um lugar-comum que é se não existíssemos, que falta faríamos para o mundo em que vivemos e quem convive conosco.

Como o próprio autor disse “o que vale é ter razões, não senões”. Encontrar as suas razões para viver, pensar, agir, sentir e ter paz de estar se transformando em algo melhor a cada dia, com a clareza de que seus valores estão alinhados aos propósitos que definiu para a sua vida e que ambos o torna uma pessoa digna das oportunidades que lhes são apresentadas.


O livro

Nunca fui de pensar qual era o meu propósito de vida e me preocupar com a maneira como me transformava e evoluía ao longo dos anos. Mas, sinto que essa leitura me levou a querer me aprofundar mais no tema e deixo aqui uma prévia de alguns trechos que resumem a minha experiência.


1 O que se aprende com o óbvio

“O que podemos aprender com o óbvio? Podemos aprender que ninguém nasce e vai se desgastando. Nós nascemos crus e vamos nos fazendo. Sim, isso é óbvio, mas como eu aprendi? O que mais aprendi? Com quem? Por que eu aprendi? E o que deixei de aprender? Quais são todas as coisas que ainda não aprendi? Quando aprenderei? Aprenderei? Sou sempre a mais recente edição, revista e ampliada.” (p. 19).

2 Escrever, para apaziguar...

“Nosso livro de reclamações ficava em um lugar de fácil acesso a todos. Era uma espécie de versão em papel de um ‘tribunal de pequenas causas’. Sua principal função era acompanhar a rotina e ajudar a apagar incêndios.” (p. 27).

3 A diferença está na atitude

“Convicção absoluta é loucura plena. Quem não tem dúvida faz sempre do mesmo modo. Quem tem dúvida se inova, se reinventa.” (p. 34).

4 Saudade e nostalgia, raízes e âncoras

“Na vida, nós devemos ter raízes, e não âncoras. Raiz alimenta, âncora imobiliza. Quem tem âncoras vive apenas a nostalgia, e não a saudade. Nostalgia é uma lembrança que dói, saudade é uma lembrança que alegra. Uma pessoa tem saudade quando tem raízes, pois o passado a alimenta […]. Pessoas que têm nostalgia estão quase sempre às voltas com um processo de lamentação.” (p. 37).

5 Experiência e imprevistos

“Eis uma belíssima lição: ver com os ouvidos. Para quem enxerga bem, a lição inclui enxergar com os olhos, não apenas olhar. É o que se poderia chamar de audiência ativa, um conceito que vale para aulas, palestras, concertos, partidas de futebol, apresentações, reuniões ou boa conversa. Uma aula produtiva não é aquela em que as pessoas falam o tempo todo. É aquela em que as pessoas participam mentalmente, raciocinam, refletem, se emocionam e, eventualmente, têm algo a dizer.” (p. 46).

6 O acolhimento da discordância

“Prestar atenção no outro de maneira sincera, eis um aprendizado que devemos procurar desenvolver nas nossas relações. Como estamos acomodados com o que somos, é o outro que nos ensina e nos liberta das nossas amarras e âncoras. Mas, para avançar, é preciso ser capaz de acolher aquele que não concorda comigo.” (p. 52).

7 O raio da paixão e a construção do amor

“Ao contrário do amor, a paixão não tem a ver com o outro, e sim com você mesmo, com a sua obsessão por uma pessoa ou situação. Há pessoas que são viciadas em paixão, na adrenalina da paixão, para alimentar uma necessidade que só pertence a si mesmo, e não ao outro.” (p. 64).

8 Viver em paz

“Escolher é adotar certas posturas e deixar outras de lado. […]. Criticar é separar o que uma pessoa deseja do que ela não deseja. Assim, ter uma vida crítica é ter uma vida consciente. Aquele que leva uma vida não crítica, ou sem critérios, não tem rumo, é um alienado.” (p. 71).

9 A ecologia, o apego e o erotismo

“Não dizem que a diferença entre um jovem e um idoso é que o jovem tem tempo, mas não tem projetos, e o idoso tem projetos, mas não tem tempo? Sem projetos, não se defende o futuro. Mas, se as campanhas conseguirem erotizar a sustentabilidade, a visão dos jovens terá outra dimensão, que possibilitará que eles exijam a sustentabilidade já e agora, como um objeto de desejo.” (p. 81).

10 A graça da vida

“Poucas coisas na vida são melhores do que a gratuidade de um gesto, aquilo que vem de graça. É o abraço espontâneo, o beijo roubado, a mão no ombro, o gesto certo num momento em que não seria necessário fazê-lo. É a graça que desperta o sentimento genuíno de agradecimento por sua gratuidade. É a graça da gratidão.” (p. 88).

11 A sociedade da exposição

“Uma das características da modernidade foi trazer à tona o culto a homens que conseguiram chegar aonde ninguém jamais tinha estado. […]. Assim, no século XX, e mais ainda no século XXI, o desafio foi, e ainda é, chegar aonde ninguém mais chegou enquanto riqueza, admiração, exposição.” (p. 96).

12 Como me tornei eu mesmo

“Bem, para ser ‘filósofo’, é preciso gostar de ler, ter dedicação ao mundo das ideias, o que eu fazia desde os 7 anos. Agora, vem a revelação de um desejo: à medida que fui crescendo, tinha uma intenção clara – servir à humanidade.” (. 112).

13 A criação de diferenciais

“Numa época em que todo mundo tem as mesmas condições e a mesma facilidade de se expor, seja no Facebook, no Twitter, o excesso de exposição devolve as pessoas ao anonimato.” (p. 121).

14 Fabricação do passado, anseio de futuro e desespero do consumo

“Numa cidade como São Paulo, a classe média vai a feirinhas de antiguidades, na praça Benedito Calixto ou no vão do Masp, para comprar a cristaleira da vovó, a poltrona dos anos 1930, a luminária da década de 1940 ou a mesa que veio de uma fazenda do século passado – mesa que nunca é reformada, que é comprada para permanecer descascada, algo que nunca se verá nas casas populares. Nessas, móvel descascado é sinal de miséria. Na casa do burguês, é sinal de riqueza, pois o antigo tem valor.” (p. 130).

15 Evolução nem sempre é para melhor

“Se nós acreditarmos que a humanidade sempre evoluirá para melhor, a tendência é esquecermos a natureza deletéria do homem, esquecermos que ele é um animal destrutivo. Assim, até a própria noção de ecologia fica prejudicada, […]. É como se a humanidade acreditasse que em algum momento da existência haverá uma purificação natural e incontestável do homem.” (p. 141).

16 Sexo, o simples e o complexo

“A vida é complexa. E, quando tentamos explicar o complexo, não conseguimos viver o simples. Essa é uma das razões por que o mundo masculino – que na nossa cultura é mais básico, menos sofisticado, mais primal, mais simples – se irrita com a tendência de algumas mulheres a quererem explicar, a quererem ‘discutir a relação’. E as mulheres se irritam com os homens que viram para o lado e dormem depois do sexo. Muitas mulheres podem encarar isso como desprezo, mas muitos homens não enxergam dessa maneira.” (p. 149-50).

17 Felicidade como vitalidade

“Felizes são os humanos, pois não são felizes sempre – mas, quando o são, podem fruir a felicidade com grande intensidade.” (p. 161).

18 Desejo, necessidade, vontade

“Há uma grande diferença entre desejo, vontade e necessidade. Desejo é impulso vital. Vontade é uma carência transitória, a inclinação em direção a algo num certo momento. A necessidade é uma urgência.” (p. 166).

19 Razões da existência

“O que vale é ter razões, não senões. Razões para viver, para pensar, para agir. Mas note que os senões são fundamentais para você contrabalançar aquilo que faz.” (p. 175).


Meu aprendizado

Como disse no tópico anterior, ainda não identifiquei o meu propósito de vida. Mas acredito que estou colhendo os feijões na estrada que me levará ao que estou buscando e esse livro contribuiu sem dúvida para isso. Nesse sentido, me apeguei ao conceito de “evoluir” x “transformar” que o autor cita no Capítulo 15 intitulado “Evolução nem sempre é para melhor”.

Nele, descobri que Darwin preferia utilizar o termo transformação em seus estudos sobre as espécies no lugar de se referir a uma possível evolução. Esse fato se dá pela percepção de que tanto as coisas boas quanto as ruins evoluem, vide o exemplo do câncer que pode evoluir até causar a morte de alguém.

Fato é que quando dizemos que fulano evoluiu, geralmente, estamos nos referindo ao seu nível de autoconhecimento e nos esquecemos que conhecer mais a si mesmo está diretamente ligado ao ato de se transformar em alguém melhor o tempo todo. Daí a transformação darwinista.

Mesmo que passemos por uma transformação ruim e acabemos por nos corromper em algum aspecto, estamos tendo a oportunidade de aprender com o erro para melhorarmos. E é esse o ponto de vista que levei comigo a partir da leitura dessa obra. Transformar sempre ao invés de somente evoluir.


Uma dica

Acredito que essa dica valha para qualquer livro, mas especialmente nesse senti que devo lê-lo novamente. Normalmente, temos diferentes entendimentos da leitura a partir da nossa vibe e aprendizado no momento em que nos dispomos a ler determinados títulos. Mas aqui eu não queria esperar novamente.

Lia um capítulo, refletia e no dia seguinte, no lugar de continuar com o conteúdo inédito, eu voltava e lia novamente o tema anterior para aprofundar o que tinha entendido e melhorar a minha percepção do aspecto tratado. Ler e experienciar. Ler novamente e firmar o entendimento. Sair na rua, conversar com os amigos, interagir socialmente pensando em algum aspecto que o livro me trouxe foi a melhor forma que encontrei (e senti necessidade de fazê-lo assim) de absorver o máximo de conhecimento deste livro magnífico.

Ro Gravina

Cofundadora da Metodológica, responsável pela área de empreendedorismo e inovação. Leitora analógica. Organizada, mas nem tanto. Sagitariana, pra quem curte essas paradas. Uma bibliotecária fora da biblioteca.

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