Logo mais assistiremos a mais uma edição do Oscar, que mais uma vez desfilará um panteão de filmes que merecem eternizar em nossas memórias.

O problema é que a periodicidade anual e a quantidade sobre-humana de títulos que se oferecem aos olhos cobra de nossa memória certa e apurada seletividade que, a partir de determinado momento ou grau de amnésia, exclui algumas maravilhas de uma vez por todas de nossa mente. E nesse grupo de injustamente esquecidos, Rede de intrigas tem, absolutamente, uma posição especial.

Aclamado como o principal filme de 1976 (há mais de quarenta anos da data desta postagem), Howard Beale nunca foi tão louco e atual como agora. As denúncias do assolamento da cultura popular pela sua faceta massificada (e o grande xadrez por trás disso tudo), vomitadas por esse marginal midiático não estão só nos livros de História, como figuram nas principais notícias (e segredos) da nossa atualidade, o que faz desse filme uma peça tanto messiânica, quanto dolorosa, pelas verdades que lá atrás já profetizava.

De fato, há no próprio roteiro de Paddy Chayefsky uma interessante estrutura antropomórfica, ou seja, que dá semblantes humanos a coisas ou fenômenos abstratos. Ao assistir, note como a personagem Diana Christensen é a própria personificação de seu objeto de obsessão: a TV. Em seus diálogos, suas ações, inclusive sensações, o mote não é outro senão audiência, concorrência, programação, enfim, televisão. Quando chega ao orgasmo, não goza por Max Schumacher, mas pelo narcisismo entoado nos números de arrecadação de anúncios, de público, processos judiciais e as consequências desses à sua carreira.

Com reconhecido valor, Faye Dunaway (sua intérprete) recebeu a estatueta de melhor atriz. Igualmente brilhante, o roteiro também foi reconhecido com o respectivo prêmio, o que não se poderia negar. Afinal, o truncado jogo que a Guerra Fria acometia no cenário político em nada se comparava com uma nova estrutura que passava por seu período de maturação: a globalização e suas proles multinacionais, inclusive do setor televisivo. É essa a história contada no filme.

Uma história de extremos, certamente. Rede de intrigas não somente demarca o divisor de uma superestrutura social, como também retrata em seus próprios personagens tal antagonismo, mostrando feridas, ignorando mortos, surrando os já feridos.

Do âncora que supostamente enlouqueceu quando passou a noticiar com franqueza e passionalidade os desagradáveis fatos até a crise do veterano jornalista que se vê deslocado do mundo que dedicou boa parte de sua vida, sobra-nos como figura normal, consciente e [suspiro] vitoriosa a imagem de quem administra e lucra com tudo isso: refiro-me ao personagem de Ned Beatty (o empresário Arthur Jensen) que parece ser o único a colocar Howard em seu devido lugar.

Os argumentos?!

O fim da ideia nacionalista dos Estados-Nação, pois os verdadeiros países hoje seriam as marcas dos produtos que consumimos, além da irredutibilidade desse statu quo, inclusive para seus supostos desafetos, pois há muito os comunistas já deixaram de compreender Marx porque se condicionaram às necessidades consumistas e ao moto perpétuo do sistema escravista que esse modelo provoca.

Nessa conjectura global, Rede de intrigas enquanto nos leva às grandes questões/depressões sociais, não se furta dos dramas individuais que, bem localizados, passam a ser mais dramáticos e fundamentais. O filme, diga-se, faz essa travessia do público aos domínios do privado de forma esplêndida.

Não fosse verdade, a atriz Beatrice Straight, que aparece na tela por apenas cinco minutos e quarenta segundos, não teria sido a mais breve interpretação a ter ganho um Oscar (de melhor atriz coadjuvante), atuando justamente sobre o tema mais pessoal (portanto, não sociológico) que cada um, a seu modo e proporção, é sujeito a padecer: a infidelidade matrimonial (não apenas sexual).

Argumentos que, não por si, mas pela referência fílmica, fazem desse título a nossa necessidade de acompanhar, quiçá, eternamente lembrar, os Oscars que se sucederem e, na periodicidade dos cometas, mais e mais enriquecerem esta nossa rede memorial de verdades que, vez ou outra, merecem ser ouvidas/assistidas.

luciano