Sentimento introdutório

Esta analogia de História-esposa e Literatura-amante surgiu em uma brincadeira minha com amigos sobre as peripécias acrobático-textuais que a Literatura me permitiu desde os primeiros encontros, em contraposição ao meu relacionamento com a História que, mesmo em uma convivência de anos, ainda se contraria em alguns comportamentos narrativos meus. Este ensaio, então, foi motivado para desenvolver esta alegoria e minhas considerações sobre alguns aspectos que aproximam (e afastam) esses dois conceitos humanísticos e portadores de outras dimensões às quais não temos contato direito.

Da dicotomia

Gostaria de começar com um lugar-comum sobre disparidades identificatórias entre esses dois saberes, onde a História trabalharia com o verídico, enquanto a Literatura se desenvolveria pela ficção.

Obviamente, essa afirmação não é verdadeira.

Caso esse paradigma fosse sustentável, a obra Os sertões de Euclides da Cunha não poderia ser considerada, em concomitância, tanto um belo feito literário, quanto um rico registro historiográfico in loco. Às avessas, a mesma advertência serve para outros livros catalogados na área de História, mas que pela forma que estão estruturados e argumentados também apresentam narrativas dignas de uma história ouvida ao pé do narrador, caso de O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg.

O que, superficialmente (adianto e admito), vejo nessa repartição nos latifúndios de saberes – onde creio não serem tão cerceáveis assim – é certo compromisso ético com a mítica objetividade buscada desde o movimento iluminista para a manutenção do status científico – ou a História com H maiúsculo – diferente de outra história grafada de forma diminuta e que pode ser maculada ao bel prazer do narrador em função do deleite de seus leitores/ouvintes.

Paul Ricoeur analisou esse dogma em duas frentes, as quais: i) o conhecimento histórico e cientificamente correto preza pela objetividade, tolerando o limite de uma subjetividade controlada. Trocando as palavras e mantendo o sentido, busca lapidar historiograficamente a crueza dos fatos brutos; e ii) esse conhecimento prima pelo cumprimento verdadeiro da tarefa obreira de quem se aventura a entrar na História dos historiadores e seu Código de Ética.

Nesse ínterim, o indivíduo, segundo Ricoeur – e a própria experiência da busca por qualquer Graal que a vida nos oferece – irá se deparar com alguns obstáculos a serem transpostos, sendo eles: i) a objetividade de se escrever a história partindo da subjetividade interpretativa de quem se propõe a fazê-lo; e ii) a própria subjetividade da história suportada como científica, ou aquela visão oficial que figura no universo coeso dos discursos entoados até que alguém reivindique o ecletismo, pluralismo, circularidade ou mesmo enquadramento semiológico no ato de ver, crer e escrever. Isso vale tanto para as polaridades alardeadas por Walter Benjamin, quanto pelo mais obscuro e irreverente (no sentido de despreocupado ou cativo) ponto de fuga.

Aqui, nestas linhas divagativas, já teríamos motivo para passar vidas discutindo a possível (ou, já para alguns, não) relação piramidal e falta de proximidade entre a História dos historiadores e a história dos narradores, mesmo a considerada mais carola. E provocando desfecho semelhante, retomo Ricoeur para endossar nesse estado de questão a ideia de que se a História, para ser reconhecida como Ciência, liga-se em circuitos éticos, metodológicos e codificados, esses valores que almejam certa consistência científica não são apenas infelizes pela condição umbilical ao ventre subjetivo, mas também e consequentemente estão integrados a outra supraestrutura de movimento linear e que, até que a criatividade humana sugira outra via – como tenta ramificar novas metodologias uterinas –, a História com H maiúsculo, assim como sua irmã de h menor, são e estão pautadas pelo narrar, contar, expor, detalhar para justificar como, secularmente, a história dos narradores (sem crise) promove.

Função histórica da Literatura

Há quem trabalhe de forma salubre a funcionalidade não apenas histórica, mas também social da Literatura. Em Um mundo sem romances, o escritor Mário Vargas Llosa enumera e discorre sobre características que fazem da Literatura um bastião das memórias e experiências. Mesmo que Llosa não defenda certa consanguinidade das referidas, seus argumentos são frutíferos o bastante para alicerçar este meu ponto de intriga e nutrir certas perspectivas, mesmo que acaloradamente. Tentarei revisitar sua ideia a partir de meu prisma de legibilidade.

Principiando pela, novamente, desmistificação do senso-comum de que a Literatura serviria para mero passatempo, Llosa a invoca como ferramenta que promove o criticismo e educa para a contestação.

Convenientemente poder-se-ia dizer, a partir de qualquer ponto contestador, que a Literatura está para transformações tal qual a História para a evidência do erro, já que até mesmo um renomado historiador, ao discorrer sobre a conceituação de sua Ciência, disse certa vez que a História serve para gatos escaldados. A partir daí, creio que Llosa se exalta em creditar à Literatura portentosa autonomia de ação, o que não se pode negar quando essa autonomia seja de linguagem e imaginação, o que, constata-se, a História não soube desenvolver sem colocar em xeque seus valores cientificistas.

De qualquer forma, o que invoca – por acreditar que seja o aspecto que aqui nos interessa – e que foi maduramente trabalhado pelo ensaísta-escritor, é a ideia da Literatura como denominador comum da vivência humana contra as desintegrações nos diversos períodos históricos. Diferente da História dos historiadores, a qual François Dosse materializou na musa Clio para depois, simbolicamente, esquartejá-la denunciando sua atual sujeição ao domínio das especializações metodológicas – onde Karl Marx ainda preconizou de idiotice especializada, indo de encontro às ideias críticas contra a ética historiográfica de valores tão subjetivos, mas, ainda assim, sempre presentes, tais como sonhos, medos, anseios etc., nos meandros públicos ou mesmo em nossa privacidade psíquica.

Muito além de meros manuais técnicos ou tratados científicos, a Literatura mostra outro tipo de tesouro conceitual: a riqueza da transmissão. Mesmo na persuasão ficcional, há ainda vestígios de linguagem descritiva, o que definitivamente a História científica ainda não desenvolveu plenamente; além do carnaval de conceitos, conhecimentos e ideias que mesmo não sendo congruentes ao mundo extraestória, desnudam pensamentos quase fonéticos dos que preconizam esses fantásticos que são – importantes frisar – compatíveis às mentalidades leitoras, ou não fosse isso verdade, a Literatura não teria o alcance e aceite tão evolutivo e por tão longo espaço de tempo em relação à historiografia, como fica claro no ontem e no hoje.

Por outro lado, a História-Ciência cerceada em seu perímetro ético de grafia, resume-se no “pisar em ovos” da investigação pela realidade em crus signos, preservando-se na cativa poltrona observativa para poupar esforços às mais árduas motivações de mudança, mesmo que mentais.

Segundo Roland Barthes, a História na Antiguidade privilegiava o real opinável – leia-se como sinônimo de narrado. Essa narrativa não fazia crítica ao se do “Admitamos…”, tão recorrido pela Literatura na ideia do Era uma vez… Logo, a notação real renunciava às coisas como eram – se é que se pode fazer essa colocação – em si mesma, mas sim em relação aquilo que dela sabiam os que a consultavam e disseminavam – metodologia muito comum em inúmeras sociedades de tradição oral que, ironicamente, nessa realidade do academicismo destilado, em sua maioria inexistem.

A questão do método narrativo do se da Literatura melhor ou pior que o historiográfico contemporâneo não me compete, e eu creio não se submeter a ninguém, o que considero – na autoridade academicamente minha indo a rés do chão – são os DNA tão similares entre dois saberes e que ainda insistentemente outros tentam de forma litigiosa separar, como se um deles fosse, qualitativamente, mero joio.

Ainda sobre os antigos, sabe-se que renunciavam às coisas em si para promover aquilo que delas sabiam os homens que as consultavam, ou seja, em sua literato-história – ou histo-narrativa para fazer visível a ideia simbiôntica – aguçavam seu senso de observação pautando, por sua vez, sua verdade, dentre infinitas possíveis. Atente, então, para um recurso tão clássico como atual na escrita das hoje, conceitualmente, minimizadas estórias.

Papel literário da História

Pensar em uma história romanceada seria equivalente a chamá-la de herética?

Essa heresia é originalmente trabalhada por Jacques Rancière ao dissecar aspectos benéficos e maléficos – sob o ponto de vista da História eclesiástica (leia-se científica) – sobre as conjecturas possibilitadas pelo viés das mentalidades, pensador este que faz interessante observação sobre a escrita da História, que aqui transporto:

Entre a história das mentalidades e a dos espaços, o círculo da inteligibilidade histórica completa-se. Há história – uma experiência e uma matéria da história – porque há fala em excesso, palavras que cortam a vida, guerras da escrita. E há uma ciência histórica porque há o escrito que pacifica estas guerras e cicatriza estas feridas retornando sobre as pistas do que já foi escrito (1994, p. 95).

Uma das leituras possíveis desse raciocínio delega à Ciência História a responsabilidade de apaziguar – no sentido coeso do termo – um caos textual que seriam os registros primeiros do objeto, e entre eles está a Literatura adornada em crônicas, assim como as mentalidades que provocariam consideráveis dessemelhanças ao fato ocorrido. Entretanto, com certa ordem de magnitude, pode-se afirmar que a História científica reescreve – ou tenta reformular – algo que já fora registrado. Digo isso ao lembrar um raciocínio de Roland Barthes que versa justamente sobre essa conjunção poligráfica formadora – ou intentando – a tal originalidade e dialética analítica historiográfica.

Do registro do fato ele problematiza:

Descrever o acontecimento implica que o acontecimento já foi escrito. Como pode um acontecimento ser escrito? Que pode isto significar senão a escrita do acontecimento? (1971, p. 161).

Obviamente, não era objetivo de Roland Barthes discutir sobre idoneidade factual da historiografia “olimpiando” o desvairo lúdico literário, mas, em seu exame semiológico, esse excerto nos serve quando desdobramos sua indagação à ideia de que se a História científica discorre sobre determinado assunto, os preceitos condutores da ética de sua sociedade academicista obrigam que o referido obreiro tenha prévio embasamento sobre sua síntese. Ora, esse embasamento terá de se emergir a partir de águas já tratadas em filtro dito tendencioso, seja na Literatura considerada mais irreal imaginável – e aqui vale a ideia da pluralidade cultural que faz florescer no artista por esse ter sido nutrido pelo próprio seio de sua sociedade/realidade -, seja no documento oficial que sempre fora elaborado pela subjetividade fermentada em uma mente.

De qualquer modo, considerável parcela dos integrantes da sociedade científica inferiorizam a Literatura por sua estrutura voltada a referenciar o que taxam como supérfluos de enchimento descritivo.

Do ponto de vista da estrutura historiográfica, essas notações seriam meros luxos de narração, desprendendo-se dos detalhes realmente úteis para creditar o valor descritivo esperado do signo, ou as grandes questões sociais ou transformadoras.

A desintegração desses signos – aspecto maior da atual sociedade simbólica – é, para outros, a tentativa dissecativa de, ao pulverizar a História – ou mesmo Clio – fazendo dela uma apresentação meramente estética, expor suas vísceras, promovendo a sua condição exótica, curiosa – a, então chacoteada, História das curiosidades, tendo no livro dos recordes sua mais representável Bíblia.

Foi discretamente chamada de modismo por Eric Hobsbawm no ensaio A volta da narrativa. Digo discretamente porque o historiador mostra certa crença na narrativa como tentativa técnica em se escrever a História coadjuvando a outras tradicionais metodologias socioeconômicas que, à guisa de seu discurso, em determinado momento do Pós-Segunda Grande Guerra, tentou – e Eric Hobsbawm assente para certo êxito – entrincheirar-se como técnica de apresentação para propostas mensuradas aos inadequados guias – que chamo de – cientificistas.

Ainda que em posição de reverência, sinto-me provocado a lembrar – ou chatear – que mesmo indiferentes em relação às literárias, ao se debruçarem – os atuais guias inadequados que o próprio Eric Hobsbawm menciona – para analisar alguns períodos e/ou sociedades com os olhos de seus respectivos períodos e técnicas idem, fazem-no atualmente com premissas não tão inéditas, caso comparemos estas aos parâmetros investigativos usados por literatos de tempos anteriores que já partiam de certa homogeneidade investigativa para imbricarem suas estórias.

Assim, creio que quando os receosos se derem conta de que o narrar literário não é decifração recreativa ou mero deleite, assim como a leitura analítica de determinado escopo não deveria visar uma estrutura descritiva única e, involuntariamente, suspirando pela mítica verdade, a fundação plena do almejado jogo de múltiplas estruturas textuais fará da História científica não apenas mais convidativa à leitura, mas também a enriquecerá ao renascer valores de análise clássica que foram enterrados pelo cientificismo moderno que, paradoxalmente, declina para uma visão eclesiástica quando chama outras possibilidades narrativas de modismos heréticos, rememorando Jacques Rancière, Eric Hobsbawm e outros monsenhores das dioceses marxistas e positivistas que muito lembram os sagazes vendedores ao tentarem comerciar um mesmo sapato epistemológico aos mais diferentes pés.

Era uma vez… uma conclusão

Abrindo mão de qualquer arremate – porque desacredito que exista um – ou mesmo usando do direito de ficar em silêncio, o que em certa medida também provoca o reflexivo e astuto leitor ao tatame da discussão, recorro à condição ativa desse ao reproduzir uma parábola interessantíssima do físico Erwin Schroedinger sobre o princípio da interpretação.

Por favor, não entenda inconclusão como mote de fuga para um desfecho tão inusitado quanto esse, onde uma divagação das humanidades sobre História e Literatura invoca a “exatidão” da Mecânica Quântica, ou mesmo não creia que incerteza aqui seria fuga em total despautério argumentativo sobre minha posição e crença. Entenda o princípio quântico da interpretação como a forma mais (in)calculável em se afirmar que tanto no olhar histórico quanto no literário a introdução da observação leitora pode alterar o fato em observação, o que melhor desenha essa tríade que é minha interação nesse conjunto de três elementos – Eu, História e Literatura.

Em um paradoxo onde a ética científica está a favor da crítica, a ética do leitor está minada pela irracionalidade dessa mesma crítica, que condiciona uma finitude narrativa as possibilidades interpretativas. Seja escrevendo História ou Literatura, ou ainda ambas em total simbiose, digo que nós, leitores, é que ajudamos a moldar atualidades e passados, simplesmente por vivermos nestes quando a eles observamos pelas obras que se prestam a trazê-los até nós.

Quanto ao Gato de Schroedinger, parábola ilustrativa que mencionei, transcrevo-a:

Suponha, diz a parábola, que um cientista coloque um gato vivo dentro de uma caixa fechada. Com o gato, há um frasco de ácido prússico projetado para quebrar se, e apenas se, um evento qualquer ocorrer – como a desintegração espontânea de uma determinada partícula radioativa com uma vida média de uma hora.

O gato tem 50% de chance de sobrevivência nesta hora. Ao final dos 60 minutos, o cientista abre a caixa. Ele encontrará um gato vivo… ou morto? Ou seja, o gato estará vivo ou morto antes do cientista abrir a caixa? (KEITH, 1998, p. 206).

luciano